14/09/2026
Aeroporto Regional de Cargas: Antes de construir é preciso comprar viabilidade

A Carta do Sudoeste 2026 volta a defender um Aeroporto Regional em Renascença, agora com terminal de cargas. A proposta merece uma pergunta objetiva: os números justificam outro aeroporto se temos o Regional Juvenal Cardoso?

O Sudoeste precisa pensar grande, integradamente e melhorar sua infraestrutura em outras áreas e criar condições para ampliar a competitividade de suas empresas. Mas pensar grande não significa necessariamente construir mais. Significa investir melhor e não chover no molhado.

A Carta do Sudoeste 2026, da AMSOP, recoloca entre as prioridades regionais a implantação do Aeroporto Regional do Sudoeste, em Renascença, com terminal de cargas. Ao mesmo tempo, propõe a otimização dos aeroportos de Pato Branco, Francisco Beltrão e Cruzeiro do Iguaçu, numa condição igualitária que não existe. Basta ver a efetividade e os números dos vôos comerciais. São aeroportos com históricos, estruturas e experiências comerciais diferentes. Aviação comercial precisa ser analisada por resultados e demanda, não por equilíbrio político entre municípios. Não se trata de disputa entre municípios. Trata-se de racionalidade na aplicação do dinheiro público.

 Antes de construir outro aeroporto, precisamos responder: a região necessita de mais aeroportos ou de mais voos? Pista não produz passageiros. Terminal não cria cargas. Companhia aérea opera onde existem demanda, frequência, ocupação e viabilidade econômica.

A inclusão de um terminal de cargas torna a necessidade de estudos ainda maior. Aeroportos cargueiros de menor porte enfrentam uma equação difícil porque a infraestrutura possui elevados custos fixos. Para funcionar, precisam de carga adequada ao modal aéreo, em quantidade, frequência e valor suficientes para sustentar a operação.

Por isso, precisamos saber: quantas toneladas anuais o Sudoeste poderá transportar por avião? Quais produtos? Quais empresas utilizarão o serviço? Para quais destinos? Quais operadores demonstraram interesse? Quanto custará a estrutura e sua manutenção? Quais os aeroportos de menor porte, de regiões similares a nossa que tem viabilidade no transporte de carga? Acredito que não existam ou sejam pouquíssimos. Sem essas respostas, temos uma intenção, não uma demonstração de viabilidade.

O Paraná oferece exemplos importantes. Curitiba, Londrina e Maringá vêm potencializando estruturas aeroportuárias existentes para ampliar sua capacidade logística. Até mercados muito maiores precisam construir escala para tornar operações cargueiras sustentáveis.

O próprio Estado já enfrentou discussão semelhante no Oeste do Paraná. Estudos de infraestrutura apontaram os elevados custos de um novo aeroporto regional diante da existência das estruturas de Cascavel e Foz do Iguaçu, reforçando a racionalidade de potencializar aquilo que já existe.

No Sudoeste, Pato Branco apresenta uma realidade que não pode ser ignorada. O Aeroporto Regional (Ponto não citado na Carta do Sudoeste) Juvenal Cardoso possui histórico de operação comercial e está recebendo investimentos públicos da ordem de R$ 48 milhões, anunciados também com o objetivo de ampliar sua capacidade logística para passageiros e cargas. Portanto, a sequência racional deveria ser outra.

Primeiro, determinar qual será a capacidade de Pato Branco após esses investimentos. Depois, medir qual demanda regional continuará sem atendimento. Somente então avaliar tecnicamente a necessidade de outra estrutura.

Pulverizar uma demanda regional limitada pode produzir vários aeroportos e poucos voos. Concentrá-la em uma estrutura competitiva pode significar maior ocupação, melhores frequências e maior interesse das companhias.

Regionalismo não significa cada cidade possuir tudo. Significa reconhecer vocações e compartilhar estruturas que funcionam.

O Sindimetal Sudoeste defende investimentos em infraestrutura e desenvolvimento regional. Exatamente por isso entendemos que uma decisão dessa dimensão precisa estar amparada em estudos transparentes.

Se existe estudo atualizado demonstrando que construir um aeroporto em Renascença, com terminal de cargas, é economicamente superior à ampliação e consolidação das estruturas existentes, que ele seja apresentado à sociedade.

As entidades representativas deveriam aprofundar o assunto. Conhecer demanda, passageiros, toneladas de cargas, operadores interessados, investimentos, custos de manutenção e retorno econômico.

Não somos contra investimentos. Somos favoráveis a investimentos que produzam resultados.

O Sudoeste precisa estar unido, mas unido em torno daquilo que funciona. Antes de construir outro aeroporto, portanto, ficam duas perguntas:

 

Precisamos de mais pistas ou de mais aviões nas pistas que já temos?

E, se o argumento agora é carga, onde estão essas cargas, quantas toneladas existem e quem está disposto a transportá-las?

Desenvolvimento não se mede pela quantidade de obras construídas. Mede-se pelos resultados que elas entregam.

 

Valter Trojan

Presidente do Sindimetal Sudoeste

Créditos: Foto: Rodinei Santos